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terça-feira, agosto 30, 2011

As Virgens Suicidas, Parte II

"A princípio os garotos não disseram nada, estarrecidos com a falação das Lisbon. Quem podia imaginar que falassem tanto, que tivessem tantas opiniões e agarrassem as manifestações do mundo com tantos dedos? Enquanto as olhávamos esquivos, elas tinham crescido, desenvolvendo-se em direções que não podíamos imaginar, lendo todos os livros da expurgada biblioteca familiar. De alguma maneira, através da televisão ou observando no colégio, tinham se atualizado sobre o ritual social de um encontro, de modo que sabiam como manter a conversação ou preencher silêncios constrangedores. Sua falta de experiência nessas situações revelava-se apenas no penteado cheio de grampos, que parecia um estofado rasgado com arames à mostra. A Sra. Lisbon nunca lhes tinha dado conselhos de beleza, e proibia revistas femininas em casa. (Uma enquete da Cosmopolitan "Você tem orgasmos múltiplos?" havia sido a gota d'água.)
Elas tinham feito o melhor possível."

Lindo demais esse livro.
Querendo saber mais sobre o filme, escrevi umas coisas aqui.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

Trem noturno para Lisboa



"Cada um de nós é vários, é muitos, é uma prolixidade de si mesmos. Por isso aquele que despreza o ambiente não é o mesmo que dele se alegra ou padece. Na vasta colônia do nosso ser há gente de muitas espécies, pensando e sentindo diferentemente."

domingo, dezembro 14, 2008

"Vim ao funeral do rei"


Estava lendo no ônibus Cem Anos de Solidão, do Gabriel García Márquez, e, mesmo sem ter terminado o livro por completo, esta passagem me chamou muito a atenção, tanto, que eu decidi publicar por aqui.
Quando terminar o livro, escrevo algo mais detalhado.
Espero que gostem, como eu gostei.

"Era Prudencio Aguilar quem o limpava, quem lhe dava de comer e quem lhe levava notícias esplêndidas de um desconhecido que se chamava Aureliano e que era coronel na guerra. Quando só, ele se consolava com o sonho dos quartos infinitos. Sonhava que se levantava da cama, abria a porta e passava para outro quarto igual, com a mesma cama de cabeceira de ferro batido, a mesma poltrona de vime e o mesmo quadrinho da Virgem dos Remédios na parede do fundo. Desse quarto passava para outro exatamente igual, até o infinito. Gostava de ir de quarto em quarto, como numa galeria de espelhos paralelos, até que Prudencio Aguilar lhe tocava o ombro. Então voltava de quarto em quarto, acordando para trás, percorrendo o caminho inverso, e encontrava Prudencio Aguilar no quarto da realidade. Uma noite, porém, duas semanas depois de o terem levado para cama, Prudencio Aguilar tocou-lhe o ombro num quarto intermediário, e ele ficou ali para sempre, pensando que era o quarto real. Na manhã seguinte, Úrsula lhe levava o café quando viu se aproximar um homem pelo corredor. Era pequeno e atarracado, com um terno de fazenda negra e um chapéu também negro, enorme, enterrado até os olhos taciturnos. "Meu Deus", pensou Úrsula. "Eu teria jurado que era Melquíades." Era Cataure, o irmão de Visitación, que havia abandonado a casa fugindo da peste da insônia, e de quem nunca se tornou a ter notícia. Visitación perguntou-lhe por que tinha voltado, e ele respondeu na sua língua solene:
- Vim ao funeral do rei"